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Invisible Girl Daily

Sou do tipo de pessoa que molha a casa depois da banho, come doces antes do almoço, briga com amigos as vezes sem razão, come toda a pipoca durante os trailers, erra, mas afinal quem é perfeito? Aproveite a vida enquanto a tempo.

Invisible Girl Daily

A pior parte da minha alma


Talvez este seja o texto mais difícil que vou escrever mas sinto necessidade de deitar cá para fora.

As coisas não andam bem, tudo me deixa ansiosa, com medo e cheia de nervos. As chamadas crises de nervos. Ando assim. Choro todos os dias e não vejo motivos para me levantar. Não sinto vontade nem prazer de ir para a faculdade. Apetece-me desistir, mas fazer o quê?

Tudo começou a cerca de 3 anos.

Os meus 16 anos foram passados todas as semanas a ir ao hospital para fazer exames. Andei um ano nisto e sem respostas. Só ouvia os que os médicos discutiam entre si, palavras vagas, que me levavam a chorar o caminho todo de volta para casa.

Em Junho de 2011 lá me disseram o que tinha, embora eu suspeita-se mas toda a gente dizia que era maluca e que ia acabar tudo bem. Sentei-me no gabinete da médica, ainda me lembro na véspera de exames, eu com resumos atrás. A conversa evolui para barrigas de aluguer. Não entendi.

Fechei-me no quarto a chorar por semanas. Porquê a mim? Dois meses depois tive a confirmação, quando mudei de hospital, não podia ter filhos, tinha havido algo de errado e nasci sem útero. Doeu imenso, mas chorava de noite, sorria de dia. Fui mandada para um psicólogo e de sempre aceitei bem e passado uns meses deixei de lá ir, porque não me fazia sentido nem me sentia confortável 

O problema foi esse, dói-a mas calei, calei tantas vezes que agora o meu peito explode. Passados 3 anos de tratamentos, de consultas... Eu sorriu mas por dentro morro. Morro de revolta, de me sentir menos mulher por não poder ficar grávida, um dos quantos sonhos que tinha. Sorriu quando me dizem que posso ser mãe na mesma e tal, mas cada vez que me dizem isso morro um pouco mais. Guardei tanto para mim que agora estou assim. Nunca fiquei tão mal como agora. Choro por mim, choro por não conseguir ultrapassar esta perda. Saltei logo para a fase de aceitação por ser mais fácil para os de fora. Não quero drama, nem fazer sofrer quem me rodeia. E do que adiantava falar? Nada vai mudar. 

Explodiu, descobri dentro de mim que esta toda tristeza advêm daí. Não me sinto mulher como as outras, não pretendo que ninguém entenda a dor. Queria ter a opção que a maioria tem, não que algo decidisse por mim. Hoje chorei, chorei pelo tempo que não chorei. Chorei pelo mal que me faz manter isto guardado no mais intimo de mim. Decidi não ter vergonha de confessar. Não quero pena. Quero conseguir deixar a tristeza e revolta.

Tenho medo de gostar de alguém, é algo pesado para lidar. Houve com quem eu me envolvesse e contasse esta pequena parte de mim e não ficou por perto, foi embora. Mais de uma pessoa. Porque pensar que há alguém que fique?

Desculpem lá quem diz que quem gostar mesmo fica e nem quer saber deste mas, eu não consigo acreditar. 

Eu sorria e pronto estava tudo bem, mas não estava não está. Odeio que me tenham tirado isto.

Não chorei, quando a minha mãe me via mal ela ficava mal por isso calei e simplesmente calei o choro. E agora esta revolta voltou. Sei que nestes tempos pode parecer algo tão banal, mas dói-me imenso. Passaram 2 anos em tratamento, esse que é todos os dias e que me relembra o que não posso ter, da falha que sou, e de ainda não acabou.

Lembro-me que atravessei uma fase péssima, há dois anos senti-me tão vazia, sem conseguir sentir nada. Foi ai que me cortei pela primeira vez, e continue a cortar para sentir algo. Até que desci a Terra e parei. Cada vez que olho as marcas no meu pulso, 4 pequenas marcas, fico desiludida, como pude estar tão mal e ninguém ver? Ninguém vê as marcas nem nos pulsos nem no olhar. Não me queria matar nem nada, só queria sentir algo.

Como posso estar tão assim e nem eu entender, nem dar conta. Acabaram-se os sorrisos.

Tenho o direito a estar triste, a chorar, a tentar entender porque algo assim acontece. Não sei como estou, poucos sei com quem posso contar. Sei que não falar do assunto está a me matar e a dar cabo da minha saúde. Ando com ataques de pânico, com medos. Nunca fui uma pessoa assim. Sempre saltei da cama a sorrir e a enfrentar o dia.

Talvez não entendam a minha perda. Perdi demais, rápido demais e tenho medo de como isso afecta o meu futuro. Não quero nem posso meter o peso disto em alguém mais senão eu.

Ainda me lembro de me dizerem "Para de fazer dramas, já sabes disso há 3 meses" e pronto essa frase mágica calou a minha dor durante 2 anos. E agora tenho as consequências.

Tenho medo de gostar de alguém e de confessar isto, tenho medo que me deixem. Nunca fui boa o suficiente para nada nem ninguém. Sou boa ao fechar-me e vejam no que deu, estou partida e de momento não vejo solução. Pode parecer um pormenor mas dói-me e corrói-me a alma todos os dias.

Uma frase que odeio ouvir e que não acredito "eu vou estar sempre aqui para ti", já foi mentira vezes o suficiente.

Não sei se consigo escrever mais, nem sequer as lágrimas controlo quando falo disto. Mas está na altura de tirar este monstro de cima de mim. Ele esmaga-me e eu não quero estar assim.